10º Domingo do Tempo Comum [07 de junho de 2026]

O olhar misericordioso de Jesus

[Mt 9,9-13]

Acompanhando os passos de Jesus no evangelho percebemos que havia uma categoria de pessoas pelas quais ele tinha verdadeira aversão: aqueles que se consideravam justos. Carregam o pecado da autossuficiência: não tem necessidade de conversão nem de perdão nem de salvação. Percorrendo o evangelho de Lucas, marcado pela misericórdia, vemos o pai acolhendo com bondade o filho mais novo, esbanjador dos bens e que volta arrependido (Lc 15,11-32). E, em outro lugar, enquanto o fariseu se apresenta na oração como justo, o publicano invoca a misericórdia de Deus (Lc 18,9-14).

Jesus manifesta no evangelho de hoje sua simpatia pelos pecadores, desprezados e excomungados de seu tempo. Quando acusado de amigo dos pecadores ele responde que os publicanos e as prostitutas os precederão no Reino dos céus (cf. Mt 21,31). Quer mostrar-lhes que ele veio para salvar e não para condenar. E que a justiça de Deus não se compara com a justiça dos homens, pois a justiça de Deus é misericordiosa, transbordante.

O OLHAR DE JESUS

O evangelho diz que “Jesus viu um homem chamado Mateus”. O olhar é uma realidade que tem uma força sobre as pessoas. Tem gente que acredita e tem medo de “mau-olhado”. O olhar pode ser de julgamento ou de acolhida; de condenação ou de perdão; o olhar pode ser sensual ou inocente; de cobiça ou de bendição; de inveja ou de alegria; pode ser fulminante ou de soerguimento. O olhar de uma criança, de um pedinte, de um enfermo tem teor diferente do olhar de um adulto cobiçoso, de alguém dominador e prepotente. Corações petrificados, imersos no mal têm olhar que fulmina, que mata, que destrói. Corações cheios de bondade e de amor têm um olhar que cura, perdoa e conforta.

No episódio do homem rico, diante da resposta do moço que parecia já ter cumprido os mandamentos, o narrador sagrado mostra o amor transbordante de Jesus a desejar que o rico desse um passo a mais: “Fitando-o, Jesus o amou e disse: ‘uma só coisa te falta, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me. Ele porém, contristado com essa palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens” (Mc 10,21-22). Ora, mesmo que o moço não tenha dado o passo naquele momento, o Senhor olhou para ele com amor. O olhar de Jesus é sempre amoroso.

O olhar de Jesus atingiu Mateus antes que este o visse. É o olhar do Senhor que nos alcança primeiro. Mateus estava parado, na mesa, desprezado e condenado pelos olhares de seus correligionários. O olhar de Jesus não condena nem julga, mas acolhe e perdoa. Mais do que isso: convida a segui-lo.

Jesus lhe oferece outra mesa. Uma mesa de perdão, de misericórdia, de acolhida, de iguais.  Uma mesa onde todos têm lugar. É a mesa da misericórdia que inclui, que comporta as diferenças, que enche o coração dos convivas de amor, de entusiasmo, de alegria. É assim a mesa de Jesus. É assim o olhar de Jesus. E nosso olhar? E nossas mesas? E nossas celebrações? Estão atingindo o objetivo proposto por Jesus?

VEIO PARA OS PECADORES

Mateus é o cobrador de impostos em Cafarnaum. Odiado pelos seus correligionários por ser colaboracionista do Império Romano que dominava a Palestina naqueles tempos. Também por não observar os rigores da Lei ao manter contato com os pagãos. Portanto, era um homem considerado impuro e traidor.

Jesus, no entanto, o convida a segui-lo. E ele deixa a coletoria de impostos e segue a Jesus. Ainda mais, oferece-lhe uma refeição como gesto de gratidão e reconhecimento ao mestre que o viu e o chamou. A comunhão de mesa era algo que tinha um peso muito grande naqueles tempos e culturas. Trouxe até controvérsia nas comunidades cristãs (cf. Gl 2,11-13). Tomar refeição juntos significava estar em comunhão de vida com aqueles que partilhavam o mesmo pão. E quando Jesus recebe os pecadores à mesa era como se ele estivesse comungando daquele estilo de vida levado pelos publicanos e pecadores.

Jesus, no entanto, tem uma intencionalidade muito mais profunda: quer ajudar aquelas pessoas marginalizadas a fazer uma experiência profunda de Deus, um caminho diferente. Quer mostrar-lhes que não são os ritos e práticas externas que salvam, mas uma vida de conversão para Deus. Um coração que seja capaz de amar. Aliás, quando Jesus chamou Mateus não fez apelo à conversão, mas pediu que o seguisse. A convivência com Jesus é que transforma a pessoa. Um encontro que transforma, converte e salva.

Aos fariseus, que murmuram diante da atitude de Jesus, ele lhes diz: “eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. E ainda lembra o profeta Oséias: “Aprendei o que significa: quero misericórdia e não sacrifício”. Com essas sentenças Jesus dá uma guinada na compreensão que os fariseus e mestres da lei tinham de Deus.  Jesus quer que mudemos nosso modo de pensar  a fé, a religião, a relação com Deus.

A atitude de abertura de Jesus à humanidade pecadora com o desejo de salvá-la encontra ainda resistência em nossas comunidades. Tendemos a nos fechar em pequenos guetos ou  oásis religioso, composto de pessoas "puras". Tendemos ao dualismo: dividimos o mundo em “justos” e “ injustos”, “puros” e impuros”, “santos” e “pecadores”. Com essa mentalidade preconceituosa e farisaica terminamos por afastar as pessoas dos sacramentos e celebrações da Igreja. A consequência é impedir a ação salvadora e libertadora de Cristo no coração dos fiéis.

Jesus à mesa com publicanos e pecadores nos remete à mesa eucarística, sacramento do Corpo e Sangue de Cristo, que nos dá também o perdão, convida à reconciliação, formando o Corpo de Cristo que é sua Igreja.

*Alguns ensinamentos da Palavra de hoje:

1. Cumprir ou não cumprir os mandamentos da Lei? A Lei não pode substituir Deus. É preciso cumprir a vontade de Deus que quer misericórdia e não sacrifícios.

2. A solidariedade é superior aos sacrifícios. Sem amor nossas orações são idolatria. Colocar no horizonte de nossas orações a solidariedade e a justiça. Deus não precisa de oração vazia.

3. Nossas orações servem para nós. A Deus não servem para nada. Nada acrescentam ao que Deus é. Elas nos ajudam a nos aproximar de Deus.

4. Agradecer a Deus pela misericórdia que ele nos dá de graça, sem pedir nada em troca.

Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN

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