Páscoa do Senhor [05
de abril de 2026]
A luz dissipou as trevas!
[Jo 20,1-9; Mt 28,1-10]
Pedro e Madalena representam, aqui, a comunidade que ainda duvidava da ressurreição de Jesus. Estavam em busca de provas e elementos que dessem sentido à vida deles, uma vez que, aquele em quem confiavam, morrera na cruz.
Quando o evangelho menciona “o primeiro dia da semana”, remete o leitor à criação do mundo, narrada no livro do Gênesis, para mostrar que a Ressurreição de Jesus é a Nova Criação. O fiel cristão, batizado, entra numa vida nova, na Nova Criação de Deus. O mundo velho passou. Agora, é tudo novo.
A “madrugada” lembra o alvorecer que desfaz as trevas da morte. Agora a vida brilhou no horizonte. A madrugada, embora traga em si o sinal do dia, possui também uma penumbra que impede de enxergar com clareza. É o que acontecia com Maria Madalena: “ainda estava escuro”. A comunidade ainda estava temerosa.
A “pedra removida” e o “túmulo vazio” são sinais de que algo novo aconteceu. É um sinal negativo da ressurreição. Esses sinais indicavam que Jesus não estava ali, porém não garantiam sua ressurreição. A “pedra removida” significa que a morte foi vencida. O túmulo não é o último lugar do ser humano. Este, pelo Cristo ressuscitado, vence também a morte e entra na vida que não tem fim, a vida eterna que já começara aqui, a partir da vida vivida em Deus, à semelhança de Cristo.
O “túmulo vazio” não é prova da ressurreição. A fé na ressurreição não vem da visão, mas da experiência de fé. As “aparições” de Jesus ressuscitado é que vão consolidar a fé dos discípulos. É o dado da fé. Uma realidade que transcende a razão. Não contradiz a razão, mas está para além da compreensão puramente racional. Por isso Santo Agostinho dirá: “Credo ut intelligam”: creio para compreender. Nós cremos pelo testemunho de fé da comunidade. A fé nos é transmitida. Cremos a partir da experiência que outros fizeram. Fazendo nós também essa experiência, transmitimo-la àqueles que a buscam. Porém, tudo é ação da Graça de Deus.
Pedro e o “outro discípulo” vão correndo ao túmulo. O “discípulo amado” chega primeiro que Pedro. Quem ama tem pressa. Ele “viu, e acreditou”. É o amor que faz reconhecer na ausência (túmulo vazio) a presença gloriosa do Cristo ressuscitado. Agora os discípulos entendem o que significa “ressuscitar dos mortos”. Agora eles vêem, não com os olhos humanos, mas com os olhos da fé. Agora estão iluminados pelo sopro do Espírito Divino que animou Jesus.
Nenhum evangelista se atreveu a narrar a ressurreição de Jesus. Não é um fato “histórico” propriamente dito, como tantos outros que acontecem no mundo e que podemos constatar e verificar, empiricamente. É um “fato real”, que aconteceu realmente. Para nós cristãos, é o fato mais importante e decisivo que já aconteceu na história da humanidade. Um acontecimento que traz sentido novo à vida humana, que fundamenta a verdadeira esperança, que traz sentido para uma das realidades mais angustiantes do ser humano: a morte. Esta não tem mais a última palavra. A pedra que fechava o túmulo foi retirada. A ressurreição é um convite, em última instância, a crer que Deus não abandona aqueles que o amaram até o fim, que tiveram a coragem de viver e de morrer por Ele.
O núcleo central da ressurreição de Jesus é
o encontro que os discípulos fizeram com ele, agora cheio de vida, a
transmitir-lhes o perdão e a paz. Daqui brota a missão: transmitir, comunicar
aos outros essa experiência nova e fundante de suas vidas. Não se trata de
transmitir uma doutrina, mas despertar nos novos discípulos o desejo de aprender
a viver a partir de Jesus e se comprometer a segui-lo fielmente.
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ELE
VIVE PARA ALÉM DA MORTE
O Senhor ressuscitou em verdade (cf Lc 24, 34). A Igreja celebra a ressurreição do Senhor no primeiro dia da semana, o domingo. Domingo vem de dominus, senhor. Ele dominou a morte e o pecado. Por isso é Senhor. Ele exerce o senhorio sobre nós. Nós somos seus servos, servidores do Reino de Deus que Jesus inaugurou.
O evangelho diz que Maria Madalena foi ao túmulo “quando ainda estava escuro”. Essa escuridão simboliza as sombras (angústias) vividas pelos discípulos após a morte de Jesus. Era como se todo o sonho tivesse acabado. Não sabiam o que fazer. Estavam na escuridão.
O testemunho da ressurreição inclui dois elementos: o sepulcro vazio e a aparição do Ressuscitado. O sepulcro vazio constitui um sinal negativo. Só fala ao “discípulo que ele amava”: “Ele viu e acreditou”. Ou seja, os sinais falam quando o coração está aquecido pelo amor. É preciso ser amigo de Jesus para compreender seus sinais. Já a aparição do Ressuscitado acontece no caminho de Emaús (Lc 24), aos discípulos desejosos de ver o Senhor e auscultar sua Palavra. No gesto da partilha do pão seus olhos se abrem e eles o reconhecem. Em seguida assumem a missão: “Naquela mesma hora, levantaram-se e voltaram para Jerusalém” (Lc 24, 33).
A escuridão da madrugada e o túmulo vazio nos dizem que por vezes ficamos confusos diante da maldade humana, diante de tantos abusos do poder, de tanta violência e morte, de tanta corrupção que desencanta e desestimula o poder do voto nas eleições, diante do sofrimento sem fim dos refugiados de guerras civis, diante das vítimas desassistidas do covid-19, diante da fome e do desmonte das políticas públicas; e somos levados a perguntar: “Deus, onde estás?”. Mas a experiência de fé nos diz que na morte (‘túmulo vazio’, ‘noite’) há sinais de vida; na escuridão há lampejos de luz. Para isso é preciso ser “amigo de Jesus” (discípulo amado), ou seja, ser próximo dele, conviver com ele, reclinar-se sobre seu peito (cf. Jo 13,25).
Esse tempo pascal nos convida a assumir a vida nova que Jesus Ressuscitado veio nos trazer sendo uma presença de luz, de testemunho vivo contra toda maldade junto àqueles que o Pai colocou no nosso caminho.
Ressurreição é luta contra o tráfico de seres humanos, contra as injustiças sociais, contra a prostituição e abuso de crianças e adolescentes. É dizer não ao desrespeito aos povos indígenas, ao mundo das drogas, à indiferença ecológica e destruição do meio ambiente. Ressurreição é se contrapor, ainda que à semelhança de alguém que ‘clama no deserto’, a esse mar de corrupção e mentiras, ganância e deslealdade que permeiam nossa sociedade brasileira; é dizer não aos desmandos de quem se julga no direito de retirar o pão da mesa dos trabalhadores pobres, das mulheres sofridas, das crianças sem amparo, negando-lhes o salário mínimo do benefício da Previdência Social. Ressurreição é dizer não às guerras que assassinam as vidas, matam os sonhos e as esperanças de pobres e inocentes. Páscoa é libertação de tudo o que oprime, maltrata e fere.
Ressurreição é ser testemunha da esperança numa sociedade materialista e desumana, onde o túmulo está vazio e as sombras da morte parecem prevalecer. Páscoa é continuar afirmando com a vida: “Ele vive e está no meio de nós!”. O Senhor está vivo e caminha conosco. Como aos discípulos de Emaús, ele abre nossos olhos para enxergarmos o mundo com um novo olhar: “Então seus olhos se abriram e eles o reconheceram” (Lc 24,31). Somente o encontro com o Senhor Ressuscitado é capaz de nos devolver a verdadeira alegria de viver, como ao etíope, funcionário de Candace, rainha da Etiópia: “Prosseguiu na sua jornada alegremente” (At 8,39). Páscoa é vida nova, é alegria, é perdão, é partilha, é esperança renovada.
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O MEDO E OS “MESTRES DA SUSPEITA”
A expressão “medo” aparece quatro vezes no relato do evangelho de hoje (Mt 28,1-10). Esta palavra forte registrada pelo autor sagrado no relato da ressurreição do Senhor nos pede para olharmos nossa vida religiosa mais de perto.
Quantas situações que provocam medo em nós. Situações existenciais como: a morte, a doença, a solidão, a criminalidade, a (in)segurança pública, o futuro, as perdas de pessoas que amamos, o desemprego, o preconceito, a rejeição etc. Também há muitos medo relativos à religião, e que tocam nosso existencial, uma vez que a religião e a vida concreta estão profundamente imbricadas, interligadas. Uma realidade não se constitui sem a outra.
Daí provêm alguns medos e perguntas: Existe vida depois da morte? Deus realmente existe ou é fruto da mente humana? Qual é a religião verdadeira? Existe uma religião mais confiável do que outra? Existe inferno, punição para os ímpios e malvados? Existe recompensa para quem procura viver na justiça e santidade? Mas em que consiste mesmo a santidade? Será que não vivemos numa espécie de fantasia religiosa? A visão que as mulheres (e os demais discípulos) tiveram não terá sido fruto da imaginação? Não terá sido um delírio? Por que os maus prevalecem? Se Deus existe, por que ele não intervém na história humana para favorecer os bons e eliminar os malvados? A religião não será uma “ilusão” (Freud)? Uma “moralidade de escravos” (Nietzsche)? Um “ópio do povo” (Marx)?
Estas e outras perguntas povoam o horizonte do ser humano provocando-lhe medo, angústia, desencanto, desespero, aflição. E é por isso mesmo que a expressão que mais se repete na Sagrada Escritura é: “Não tenhais medo!”. Ou seja, uma palavra que deve inspirar confiança, entrega, esperança. Não uma entrega cega, sem razão, sem compreensão, sem buscas de questionamento das coisas que nos acontecem. Mas uma entrega livre, pensada, refletida, aberta a novos horizontes de compreensão da humanidade e da fé.
Podemos trazer aqui as três grandes “suspeitas” da motivação religiosa:
1. A Religião como Ilusão (Sigmund Freud): Freud argumentava que a religião é uma "neurose obsessiva universal" ou uma ilusão, nascida do desejo humano de proteção contra a impotência diante da natureza e da morte. Para ele, Deus é uma projeção da figura paterna, criada para consolar o ser humano diante dos medos.
2. A Religião como Moralidade de Escravos (Friedrich Nietzsche): Nietzsche criticou a religião (especialmente o cristianismo) por promover uma "moral de escravos", que valoriza a submissão, a fraqueza e a negação da vida terrena em troca de uma promessa de pós-vida. Ele via a religião como uma força que inibe o potencial humano e a afirmação da vida.
3. A Religião como "Ópio do Povo" (Karl Marx): Marx via a religião como uma estrutura ideológica que mascara a exploração social e econômica. O termo "ópio" sugere que ela funciona como um analgésico, dando consolo ilusório aos oprimidos e impedindo-os de lutar por mudanças reais na terra.
(https://www.bbc.com/portuguese/articles/cndgy8zggdlo).
Os três “mestres” querem provar que a religião é um atraso para o ser humano e para a história. Ela traz prejuízo para a humanidade. Embora, em alguns aspectos eles tenham razão, sobretudo quando a religião é usada para manipular, dominar, abusar do ser humano através do medo ou de promessas mentirosas, por outro lado as “suspeitas” podem ajudar a purificar nossas motivações religiosas.
A partir de Jesus Cristo parece não haver outro caminho que responda às buscas humanas para além de todo medo e angústia, a não ser o amor. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. (...) Dei-vos o exemplo para que, como vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,1.15). Foi por amor que fomos criados e é por amor que fomos salvos. A grande motivação da nossa vida de fé deve ser o amor incondicional.
Movidos pelo amor não teremos mais medo. O amor vence o medo, o pecado e a morte. Nossas motivações religiosas serão purificadas dos ressaibos que a condição humana nos impõe. As ações de justiça e de santidade não serão realizadas por medo do inferno ou para ganhar o céu. Mas a vida será vivida de modo leve e livre: conscientes de que o amor de Deus nos envolve, nos move e nos salva.
Pe. Aureliano de Moura Lima, SDN
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